Existe algo de profundamente curioso no futebol maranhense: a velocidade com que certas figuras conseguem tentar reescrever a própria história quando o castelo começa a desabar. Durante anos caminham lado a lado com o poder, frequentam os mesmos ambientes, sustentam os mesmos silêncios, ajudam a blindar as mesmas estruturas e assistem confortavelmente ao clube afundar sem grandes crises de consciência. Mas basta o desastre alcançar um nível insustentável, basta a revolta da torcida ganhar corpo, basta o desgaste público se tornar incontornável, e pronto: nasce um novo personagem. Surge o “moderado”, o “equilibrado”, o “homem da reconstrução”, o sujeito que agora aparece falando manso, medindo palavras, tentando convencer a torcida de que sempre esteve preocupado com o futuro do clube. É quase um milagre político. Um fenômeno de transformação instantânea que faria inveja até aos roteiristas mais preguiçosos das novelas das nove.

O problema é que a memória ainda existe. E ela continua sendo profundamente inconveniente.

Porque clubes não chegam ao fundo do poço por obra de um único homem. Nenhuma destruição institucional dessa magnitude acontece sem sustentação política, sem cumplicidade conveniente, sem silêncios calculados e sem gente disposta a permanecer próxima do poder enquanto tudo vai sendo desmontado peça por peça. O clube caiu esportivamente, se apequenou politicamente, perdeu credibilidade, afastou sua torcida, destruiu relações internas e mergulhou numa cultura de personalismo sufocante. E nada disso aconteceu de repente. Foi um processo longo, contínuo, alimentado por uma lógica de poder onde poucos mandavam, poucos decidiam e quase ninguém podia questionar.

Agora, no entanto, querem transformar a torcida em espectadora de uma falsa guerra de independência. De um lado, o velho rei desgastado. Do outro, a versão repaginada do mesmo modelo, embalada num discurso aparentemente civilizado, como se trocar o tom da fala fosse suficiente para apagar anos de participação direta na mesma estrutura que levou o clube ao caos. É quase uma operação estética: reduz-se o volume da arrogância, melhora-se o marketing, troca-se a agressividade explícita por frases moderadas e espera-se que a torcida, emocionalmente esgotada, abrace qualquer narrativa minimamente diferente como se fosse revolução.

Mas talvez o detalhe mais irônico de toda essa história seja justamente o currículo tardio de certos “salvadores”. Porque há figuras que até outro dia sequer frequentavam a cultura do futebol maranhense. Gente que até 2017 mal aparecia em estádio, não fazia parte das arquibancadas, não vivia o sofrimento cotidiano do torcedor comum, não conhecia a dureza das divisões inferiores, das viagens improvisadas, dos times ruins, das tardes vazias e das humilhações esportivas acumuladas. E eis que, num passe de mágica institucional, surgem transformados em líderes naturais da reconstrução tricolor. É impressionante como o poder produz vocações repentinas. O sujeito descobre o futebol quase por download, instala rapidamente o personagem de dirigente experiente e passa a discursar como se tivesse nascido dentro de uma concentração antes de final de campeonato.

Enquanto isso, quem realmente colocou a cara para enfrentar o sistema continua sendo tratado como exagerado, radical ou inconveniente. E talvez essa seja a parte mais perversa da história. Porque quando quase ninguém tinha coragem de falar, havia gente sendo processada, ameaçada, perseguida politicamente e exposta publicamente apenas por denunciar aquilo que hoje muitos fingem ter descoberto de forma tardia. Houve quem enfrentasse desgaste pessoal, medo, pressão e isolamento para romper um silêncio que parecia absoluto. Agora que a revolta se tornou popularmente aceitável, aparecem os moderados profissionais querendo ensinar prudência justamente para quem teve coragem de iniciar o enfrentamento quando isso ainda custava caro.

No fundo, o que tentam vender não é reconstrução. É apenas reorganização interna do mesmo sistema. Uma troca de coroas dentro de um reino em ruínas. Porque o problema nunca foi apenas um nome. O problema sempre foi a lógica que transformou o clube numa estrutura fechada, personalista, blindada politicamente e afastada do seu próprio povo. E enquanto a torcida continuar sendo empurrada para escolher entre versões diferentes do mesmo modelo de poder, o clube seguirá preso ao ciclo que o levou ao fundo do poço.

Talvez a pergunta mais honesta continue sendo a mais simples de todas: como alguém consegue se apresentar como solução para um desastre do qual participou diretamente durante anos? Talvez a resposta esteja justamente na aposta permanente de que a memória do torcedor seja curta, emocional e manipulável.

Mas há algo que certos grupos parecem ainda não ter compreendido: a arquibancada pode até demorar a reagir, pode até suportar derrotas, humilhações e temporadas desastrosas, mas quando ela começa a perceber o tamanho da manipulação que sofreu, passa também a distinguir reconstrução verdadeira de mero teatro político encenado às pressas para salvar aquilo que restou do poder.

POR: MOVIMENTO O SAMPAIO É DO POVO